Conto: Gravidade Zero
Publicado em 03/08/2020 | 10:13 - 978

Rafael era um homem pobre. Com vinte e sete anos, j era casado com Fabiana, mas no tinha filhos. Morava em uma casinha com paredes feitas de barro e telhado de palha, perto da mina onde trabalhava. Acordava todo dia s quatro horas da manh para chegar na mina s seis. Fabiana no tinha emprego, mas fazia algumas rendas para vender na cidade, mas era difcil conseguir vender algo, pois era uma cidade muito pequena, e os moradores eram em sua maioria, modestos. No chegavam a passar fome, mas no tinham fartura.
Naquele dia, Rafael levou em sua marmita, arroz e mandioca, comeu fria, sentado na beira do tnel principal, mais largo e mais bem iluminado. No existiam muitos mineradores naquela mina de cobre, mas havia vrios tneis antigos, perigosos, podendo ceder a qualquer momento. Alguns mineradores usavam esses tneis como banheiro, pois a companhia s colocava banheiros qumicos do lado de fora das minas. J era noite quando Rafael saiu da mina, imundo, cansado, fedendo. Passou pela administrao e pegou o pagamento do dia. Essa rotina se repetia de domingo a domingo, pois ele recebia por dia trabalhado e era to mal pago que no podia se dar ao luxo de muitas folgas. O dinheiro que sobrava, guardava para quando ficava doente e no conseguia trabalhar.
Nesse dia, Fabiana conseguiu vender duas peas, ento comprou um pouco mais de linha e ainda ganhou quatro ovos de uma amiga da cidade.
- Rafa, a janta est quase pronta, vai tomar um banho pra gente comer.
- O que tem pra comer?
- Hoje temos arroz com ovo.
- Mas o ovo no estava caro? O que aconteceu? Baixou o preo?
- No, ganhei 4 deles.
Ento felizes eles jantaram, pois ovo e carne eram raros em sua mesa. No tinham posse, bens ou dinheiro, nunca saram da regio, os dois eram rfos e eram amigos desde adolescentes. No outro dia, acordou cedo e foi trabalhar feliz, pois tinha um ovo na sua marmita. J era quase hora de almoar, ento Rafael entrou em um tnel mais afastado para se aliviar. Avanou alguns metros na escurido, apenas com uma pequena lanterna presa na testa. Ao abrir o zper da cala, escutou um estrondo. Teve tempo apenas de olhar para a entrada do tnel e ver as ltimas pedras que desabaram, tampando a entrada. Correu at l e tentou escavar, mover algumas pedras, mas as pedras eram grandes e as pequenas que conseguia retirar no faziam efeito.
- Socorro! ? Gritou, mas no escutou nenhuma resposta.
Na verdade, percebeu que no escutava nenhum rudo mais, como se estivesse surdo, mas ao tentar mover outra pedra, escutou quando um pedregulho que se soltou acertou o cho.
- Pelo menos no estou surdo. SOCORRO! ? Voltou a gritar.
E por alguns minutos, o desespero tomou conta dele e ele s gritava por socorro. At ficar cansado, desistir, sentar do lado da pilha de rochas e chorar. Chorou at adormecer. Acordou cansado, com os braos e pernas doendo, a barriga doa de fome. Se lembrou do ovo na marmita, mas no poderia comer, o armrio onde guardava suas coisas ficava na entrada da mina. No sabia se tinha dormido por alguns minutos ou horas, a luz da lanterna estava enfraquecendo e as pilhas j estavam gastas. A picareta que usava para trabalhar tinha ficado do lado de fora, ele estava apenas com um leno no bolso de trs da cala. Olhou em volta e viu apenas as rochas bloqueando a entrada. O tnel seguia para o outro lado, mas logo fazia uma curva. Sentado, Rafael se sentiu triste novamente, queria chorar. Ningum sabia que ele estava ali, no avisou que estava indo usa algum tnel, e havia centenas deles pelo caminho. A mina era antiga, apenas recentemente fizeram melhorias no veio principal, para no acontecer desabamentos como aquele. Os tneis antigos no possuam escoras, estavam abandonados havia tempo, enquanto o tnel principal estivesse fornecendo uma boa quantidade de cobre, no era necessrio melhorar e explorar os tneis antigos. Com a luz enfraquecendo, decidiu explorar o tnel, procurar alguma rota alternativa, ento foi avanando o tnel. Uma curva dava esperanas, podia ter uma ligao com outro tnel e uma sada. Mas a curva levava o tnel para a direita e depois novamente para a esquerda, ento continuava reto. Rafael seguiu o tnel, andando por aproximadamente quarenta minutos, quando se deparou com outra pilha de rochas. Desanimado, desistiu de tentar. Caiu sentado na frente das rochas, voltou a chorar. Iria apenas esperar a morte chegar. Adormeceu novamente. Acordou no silncio esmagador, mais dolorido do que antes. O frio agora entrava sob suas roupas, a cabea doa, mas a fome abrandara, apenas uma leve dor indicando o estmago vazio. A escurido era total, abrir ou fechar os olhos no mudava nada.
Em desespero, Rafael se deixou cair novamente, mas quando sua cabea tocou o cho frio da caverna, ele vislumbrou um pequeno reflexo azulado sob uma rocha. Se sentou e piscou vrias vezes olhando naquela direo, mas o reflexo desapareceu. Voltou a deitar e conseguiu ver novamente o reflexo. Tateou a rocha, era enorme, talvez fosse maior que o prprio Rafael, mas ele no tinha como saber. Tentou mov-la, mas era muito pesada ou estava presa. Tentou colocar a mo por baixo da pedra, mas o vo era muito estreito. Nem uma criana conseguiria colocar a mo ali. Aps vrias tentativas de mover a rocha, Rafael estava desistindo, quando chutou algo que fez um barulho diferente das pedras. Tateou no cho at encontrar um pedao de madeira, uma viga pequena ou algo assim, quadrada e comprida, com um dos lados lascado, como se tivesse partido. Pegou a madeira e procurou algum encaixe, algum vo, onde pudesse colocar a madeira, e achou. Na lateral da rocha tinha um buraco entre outras duas pedras que se encaixavam nela. Colocou a madeira ali e forou. A princpio, no conseguiu nem um movimento, mas logo ouviu o som de pedrinhas se desprendendo e caindo. Sentiu o cheiro da poeira e ento a rocha foi lanada para frente. Escutou a pedra batendo no cho a vrios metros dele, como se ele tivesse jogado uma bola e no uma rocha. As pedras que estava por cima tambm se movimentaram, caram no vo deixado pela rocha, mas uma segurou a outra e fizeram uma espcie de teto no vo deixado pela rocha. Rafael olhou em busca do reflexo azulado, mas no viu nada.
Logo a poeira baixou e revelou um pequeno ponto de luz azul, no muito forte, mais parecia com um reflexo de uma outra luz. Era isso que Rafael viu, tateou at a luz e sentiu a luz vinha de um objeto que estava preso em algo comprido. Puxou com fora e o que estava preso se soltou. Jogou horrorizado aquilo no cho. Era o esqueleto de uma mo. Mas a curiosidade era maior, ele pegou o objeto, era um anel. Assim que ele puxou o anel do dedo da caveira, a luz se apagou e ele ouviu o barulho de uma pedra caindo no cho, alguns metros a frente de onde estava. Pegou o anel e tateou. Era liso, apenas um pequeno relevo. Ao apertar o relevo, uma luz azul acendeu. Ao soltar, a luz apagou. Ento ele posicionou o anel para fazer o relevo ficar entre os dedos e a luz para cima. A luz era fraca, mas naquela escurido, era um consolo para os olhos. Com o anel posicionado entre os dedos, era fcil manter o boto apertado. Resolveu voltar entrada do tnel, se algum estivesse tentando resgat-lo, era melhor estar por perto. Comeou a tatear at achar a parede. Com a mo esquerda na parede se guiava no tnel, com a direita pra frente, mantinha a luz visvel, para no entrar em pnico, e para no trombar com alguma rocha ou curva que porventura aparecesse na frente. Logo comeou a caminhar. Dez metros depois, bateu com a mo direita na rocha que tinha desprendido antes. Com o susto a luz se apagou. Tentou mover a rocha, mas era muito pesada. No entendia como conseguiu tirar aquela pedra dali, e nem como ela chegara to longe. No era redonda, era bem irregular, e tinha lados achatados. Lembrou-se da luz e apertou os dedos. A luz azul se acendeu e ele chegou mais perto da pedra para examinar. Chegou to perto que acabou batendo o anel na rocha. Com a outra mo tentou se apoiar na rocha, mas esta rolou para o lado. Assustado deu um passo atrs e afrouxou a mo. A luz se apagou e ouviu o barulha da rocha caindo de volta no lugar onde estava anteriormente. Rafael tentou novamente mover a rocha, ela no cedeu nem um milmetro. Ligou a luz azul e tentou novamente. Nada. Encostou o anel na rocha e empurrou novamente. A pedra se moveu sem nenhum esforo. Ele empurrou a rocha com fora e ouviu ela raspando na parede enquanto se afastava. Soltou o anel e ouviu o barulho da rocha caindo no mesmo instante.
No escuro, Rafael levou horas para voltar at a entrada. Quando chegou estava exausto, mas se forou a retirar as pedras. Com cuidado retirou as pedras, algumas faziam outras carem novamente, mas no tinha escolha, era a nica chance de sobreviver. Conseguiu mover as pedras at ver uma luz fraca, por duas vezes teve que retirar pedras que caam e fechavam o caminho, mas conseguiu deixar um buraco suficientemente grande para passar. Quando finalmente emergiu no tnel principal, ouviu:
- Olha l, o Rafael!
- Voc melhorou?
? Perguntou outro homem.
- Melhorei? O que vocs esto falando? ? Respondeu Rafael.
- Voc sumiu outro dia na hora do almoo, depois ficou um dia inteiro fora e aparece agora, quase na hora de irmos embora, achamos que tinha passado mal e ido pra casa.
- Ningum me procurou? Fiquei preso na caverna.
- Como assim? O que estava fazendo numa caverna dessas? Sabe que no devemos entrar.
Rafael ficou furioso que ningum percebeu que ele tinha sumido, deu as costas aos colegas e foi para casa. Chegando em casa, encontrou Fabiana aos prantos.
- Rafa. Voc est bem. Graas a Deus.
- Estou bem agora. - O que aconteceu?
- Fiquei preso em uma caverna. Nunca mais volto naquela mina.
- Voc est bem? Deixa eu ver.
? Fabiana foi apalpando e revirando Rafael, at ficar satisfeita.
- Estou bem, estou bem. S estou cansado... e faminto.
Ento Rafael se lavou enquanto Fabiana fazia a comida. Comeu e dormiu at a metade do outro dia.
- O que vamos fazer agora? ? Perguntou Fabiana.
? Voc disse que no vai voltar naquela mina, eu no acho trabalho, temos muito pouco dinheiro em casa.
- Vamos para a cidade grande, para outro estado, vamos fazer nossa vida. ? Respondeu Rafael.
- Mas Rafa, ns no temos estudo, no conhecemos ningum. Como vamos chegar na cidade grande? Rafa no tinha a resposta, mas Fabiana o seguiu quando ele juntou seus poucos pertences em uma trouxa de pano e abandonou aquele lugar ermo. Foram meses para chegar na capital do estado, pegando caronas, comendo s custas da bondade de estranhos, passando fome. Quando chegaram capital, Fabiana pedia dinheiro s pessoas para poderem comer e Rafael procurava um trabalho. Logo achou um emprego para carregar sacos de cimento, seria um trabalho pesado se ele no tivesse o anel, ento aceitou. Em poucos meses conseguiram alugar uma casinha na periferia, no estavam mais passando fome. Rafael comeou a estudar, achou um supletivo perto de sua casa. Conseguiu um emprego melhor em um canteiro de obras, aprendia o ofcio, carregava material e entulhos o dia todo, mas sempre usando o anel, no aparentava cansao como os outros trabalhadores, ento comeava a fingir para no se destacar. Rafael sabia que se algum descobrisse sobre o anel, iriam tomar dele, no contou nem para a esposa sobre ele. Aprendeu o bsico no supletivo, procurou ler e aprender as coisas, descobriu que gostava muito de saber coisas que nunca imaginava que existiam, como barcos enormes que afundaram no mar, com tesouros no descobertos. Isso se tornou uma fixao em sua mente. Estudou tudo sobre o assunto. Gastava seu tempo livre indo biblioteca municipal, acabou aprendendo a usar o computador para pesquisar na internet. Deixou Fabiana de lado, mesmo no deixando faltar comida, roupas, remdios, etc, no tinha tempo para estar com ela, passear. A sede de conhecimento criou um espao entre eles.
Rafael decidiu se mudar para uma cidade litornea, para estar mais perto do seu sonho. Fabiana foi contra, eles tinham se acertado ali, feito amigos, iam para um lugar desconhecido novamente? E se Rafael no tivesse a mesma sorte nos empregos, como aconteceu ali? Todo lugar que ele trabalhava, se dava bem. Sempre envolvendo trabalho braal, sempre conseguia executar seu trabalho perfeitamente. Com um pouco de dinheiro que tinham guardado, alugaram uma casa na nova cidade. Logo encontrou trabalho no porto, ajudando a arrumar cargas de navio, carregar e descarregar caminhes, etc. Em seu tempo livre, Rafael aprendeu a nadar, mergulhar, usar equipamentos que ele s tinha lido sobre. Algum tempo depois, apareceu um navio de pesquisadores. Conseguiu um emprego no navio e logo comeou a mergulhar para ajudar as investigaes. Passava semanas no mar, aprendia muito sobre pesquisa e abria uma distncia ainda maior de sua esposa.
Alguns meses depois de se tornar mergulhador oficial naquele navio, descobriram um navio negreiro muito antigo, naufragado. Entraram e viram centenas de esqueletos dentro dele. Voltaram para a superfcie e desistiram dele. Mas Rafael estava curioso, voltou sozinho para vero navio, tinha lido que o comrcio de escravos era prspero, talvez tivesse algo de valor nas cabines dos oficiais. Logo que entrou no navio, passou por entre todos aqueles esqueletos, indo para o fundo, onde havia portas fechadas. A maioria das portas levava a despensas de latas enferrujadas, sacos de comidas vazios, alguns canhes e munio. Mas um uma das portas descobriu uma cama e um armrio. No encontrou nada ali, s um livro esquisito, com pginas grossas que resistiram gua do mar. Quando estava saindo da cabine, percebeu um vo entre as madeiras laterais, forou e encontrou um ba enorme. Seriam necessrios cinco homens pra carregar algo assim. A tranca enferrujada abriu com facilidade, revelando moedas, jias e barras de ouro. Usando o anel, Rafael tirou o ba do navio e o levou para longe, colocou pedras, pedaos de madeira e outras coisas grande para esconder o ba, depois voltou para o barco. Marcou as coordenadas do GPS e no comentou com ningum sobre aquilo. Quando voltou para casa, uma semana depois, pegou todas suas economias e alugou um barco e equipamentos de mergulho. Sozinho, navegou at o local apontado pelo GPS, mergulhou e trouxe a arca para cima. Foi o que precisou para comear sua prpria companhia.
Comprou um barco pequeno, mergulhava sobre algum navio e dizia ter encontrado algum ouro, depois outro e outro, logo conseguiu legalizar todo aquele ouro, e encontrou algumas coisas valiosas enquanto isso. Se tornou muito rico, mas ficou arrogante. Desprezava as pessoas que no tinham posse, tratava mal seus funcionrio e sua esposa, at que ela no aguentou mais e se separou dele.
- Eu nunca te deixei faltar nada, sua ingrata. ? Rafael disse naquela noite. ? Eu te tirei da misria e voc me trata assim.
- Voc no me tirou da misria, ns viemos para a cidade juntos, voc era miservel tambm.
- Voc tem tudo. Carro, viagens, faz compras a hora que quer, o que te falta nessa vida?
- Amor. ? Ela respondeu. ? Voc no mais o mesmo Rafa. Ns no tnhamos dinheiro mas ramos felizes.
- Felizes? Voc est louca? Nem conseguamos comer direito. Hoje comemos at arrebentar o estmago.
Com lgrimas nos olhos, Fabiana se virou e fugiu pela porta. Foi a ltima vez que Rafael veria Fabiana em vida. Os dias seguintes foram angustiantes para Rafael. Sem Fabiana, ele no conseguia pensar direto, a empresa foi deixada de lado, as buscas, tudo. Ele tinha dinheiro, mas perdera o nico amor da sua vida. Rafael procurou por Fabiana por meses, gastou muito dinheiro com detetives, investigadores, informantes, mas no achou nenhuma pista dela. Em desespero, voltou sua cidade natal, com roupas elegantes, visitou sua antiga casa e descobriu que estava vazia. Passou a noite ali. Lembrando. Chorando. No dormiu, apenas ficou olhando para as paredes nuas. No outro dia, foi at a mina onde trabalhava, e a encontrou fechada. Com um chute, derrubou a fina porta de madeira que bloqueava a entrada. Descobriu vrias rochas cadas, tampando parte do caminho. Retirou algumas e entrou. Encontrou uma lanterna de cabea que ainda funcionava, colocou e foi at a parte onde trabalhava. Chegando quase no fim do tnel, Rafael reconheceu o local onde ficou preso. A maioria das pedras ainda estava l, mas o buraco se transformara em um vo. Ele resolveu entrar. Queria ver aquele esqueleto mais uma vez. Queria perguntar se ele teve os mesmo problemas, se o anel trouxe tantas alegrias e decepes tambm para ele, ao passar pelo vo, retirou as pedras pesadas que estavam nas laterais, com isso o teto comeou a cair. Cada rocha que caia, Rafael pegava com o anel e jogava longe, mas em uma das vezes que se virou para jogar uma rocha, uma pedra o acertou nas costas, derrubando-o. Rafael conseguiu se virar e tirar a pedra com a ajuda do anel, mas outras pedras vieram e o prensaram antes dele conseguir toc-las com o anel. Logo Rafael estava soterrado, agonizando. A poeira assentou, a luz da lanterna se extinguiu, deixando apenas a escurido intensa e uma tnue luz azul que refletia na mo plida e gelada presa entre as rochas.


Comentários
Escrever Comentário


Site Desenvolvido por Fernando Florim
2023 Todos os direitos reservados
787