Ficção
Sem Memória


Acordou sem se lembrar de nada, onde estava, quem era. Tentou se levantar mas estava fraco, sua cabeça doeu. Quando colocou a mão tentando parar a dor de cabeça, sentiu algo gelado de encontro à testa, ao olhar, percebeu que sua mão era feita de ferro. O susto quase o nocauteou novamente. Procurou examinar a mão que se movia como se fosse sua própria carne.
- O que é isso? – Disse.
Mas não ouviu o som da sua própria voz. Percebeu que na verdade, tudo era silêncio, apenas um leve zumbido ao fundo. Olhava para o céu carregado, mas sem chuva. As nuvens pareciam descer até poucos metros acima de sua cabeça, então percebeu que era apenas um pouco de fumaça. Tentou levantar novamente, agora devagar.  Consegui se sentar, mas a tontura chegou e quase o derrubou novamente. Olhou ao redor e se descobriu deitado sobre escombros do resto de algum galpão. O teto caíra e duas paredes também. Outras edificações estavam ruindo do outro lado da rua.
- Aqui está ele. – ouviu baixinho. Se assustou pois não percebera que a audição estava voltando aos poucos.
Dois homens de botas pesadas, vestidos com roupas de cor neutra e tecidos grossos, como caçadores sem os apetrechos. Grandes armas pendiam em seus ombros, seguras por uma alça improvisada de arame.
- Venha, eles ainda estão te procurando. - Disse um deles.
Como não pareciam lhe desejar mal, resolveu acompanhar os dois homens.  Correram por entre prédios ruídos, ouvindo sons de armas disparadas e bombas explodindo ao longe.
- Creio que estamos seguros, pensei que tinham acabado com você James, mas aqueles voadores são muito burros. - Disse um dos homens.
- São burros mas fortes pra caralho. - Disse o outro. - Você está muito calado, James. O que aconteceu?
- Estourou um míssil perto dele, o que você acha que aconteceu? - Disse o primeiro homem. - Depois a gente conversa, vamos sair daqui.
Continuaram a correr até o final da rua, sempre com cuidado para não fazer barulho, agachando quando estavam em terreno aberto. Mas no momento em que chegaram na esquina, saíram duas máquinas de trás de um escombro de onde fora uma loja de departamentos. As máquinas eram do tamanho de motos, mas eram blindadas, sem espaço para alguém entrar nelas. A frente das máquinas eram afuniladas, com um vidro escuro na ponta. Nas laterais havia dois aros grossos horizontais, nos quais havia uma hélice em cada um. Conforme se moviam, as máquinas levantavam muita poeira dos escombros.
- Malditos voadores! Vamos tentar sair daqui antes que nos vejam. - Disse um dos homens. Mas não houve tempo. As máquinas já estavam voando em sua direção.
- Identifiquem-se! - Veio uma voz metálica de um dos voadores.
- Aqui está minha identificação! - Gritou um dos homens enquanto abria fogo contra as máquinas.
Os tiros ricocheteavam nas máquinas e pareciam nem fazer efeito, mesmo os que acertavam no vidro escuro. O trio começou a correr e atirar para trás, e os voadores foram em perseguição. Logo os voadores estavam atirando de volta no grupo, mas não conseguiam fazer boa mira, o que obrigou os três homens a se abrigarem em um escombro perto.
- Não podemos ficar aqui, só temos uma parede nos separando dessas malditas, vamos para a parte que não caiu. - Disse o homem que atirou primeiro. Então correram alguns metros em direção à uma escada visível que os levaria ao próximo andar. Ao chegarem na escada, os tiros os acompanhavam, e um acertou a perna do último homem da fila.
- Mike, você está bem? - Disse o primeiro homem.
- Consigo andar ainda, mas não posso correr, vamos continuar subindo, Roger. - Respondeu Mike.
James apenas corria entre eles, mas parou para ajudar Mike a acabar de subir as escadas. Uma das máquinas chegou no pé da escada, mas os homens já estavam quase no topo. James olhou para frente e viu que Roger parou abruptamente. Havia apenas uma pequena faixa de concreto quando a escada acabava e, teriam que se equilibrar para a esquerda para entrar por uma porta onde parecia ter outro corredor. Roger não teve tempo para processar isso, pois ao chegar no topo da escada, o voador estava subindo ao seu encontro bem na sua frente.
- Merda! - Gritou Roger – Não conseguimos derrubar esses filhos da mãe sem uma bazuca.
James estava bem perto de Roger e percebeu que iriam morrer ali se não aparecesse nenhuma ajuda. Então por instinto correu na direção da máquina e pulou em cima dela. Sem tempo para pensar,  de mãos nuas, foi em direção à hélice direita do voador e colocou toda a sua força em um soco bem no centro daquele dispositivo que girava em tão grande velocidade. No mesmo instante toda a parte direita da nave explodiu, jogando James para o lado, que caiu de costas de uma altura de cinco metros.
No momento da explosão, tudo voltou de uma vez na mente de James, como a empresa de robótica DB Robotics espantou o mundo ao invadir uma conferência da ONU e prender vários presidentes que participavam de uma reunião sobre preservação do meio ambiente. Máquinas que pareciam saídas de filmes, computadorizadas ou controladas remotamente não deixavam polícia, militares ou qualquer ajuda chegar. Então quase que simultâneamente, alguns países importantes tiveram o governo derrubado por milícias que atuavam em nome da DB Robotics. James era um agente secreto de proteção da ONU, estava presente quando as máquinas atacaram. Levou vários tiros, teve a perna e o braço direito arrancados durante uma explosão e foi deixado para morrer, mas  uma pesquisadora brasileira que trabalhava em Genebra, Suíça, cidade onde se passava o encontro, conseguiu implantar próteses mecânicas, substituindo o braço, ombro, perna, metade da bacia e algumas costelas. Foram meses de sofrimento intenso enquanto seu corpo rejeitava as próteses, mas a pesquisadora não descansava e tentava de todos os meios fazer com que ele sobrevivesse. As próteses foram retiradas e substituídas três vezes antes que o corpo conseguisse aceitar aquilo. E ainda até hoje James tem que tomar remédios para transplantados, contra a rejeição de órgãos, que incrivelmente se adequou à sua situação. Mas isso fora a um ano e oito meses atrás. Quando se recuperou, descobriu que a DB Robotics tivera êxito em controlar os países que atacou, e que vinha se expandindo pelo mundo. Descobriu também que haviam rebeldes contra essa dominação, e procurou se juntar a eles. Em pouco tempo assumiu uma posição alta no comando, devido sua experiência. Com os implantes, tinha uma força bem maior que a maioria dos homens, e o metal conseguia protegê-lo de alguns perigos. Mas não era indestrutível.
Quando tocou o solo com as costas, James viu o outro voador se aproximando rapidamente. Levantou o braço para se proteger, mas descobriu que ele se fora. A perna estava torta, mas continuava lá. Tinha saído em uma missão simples, por busca de alimentos, já que estavam em um país controlado pela DB Robotics e as pessoas que viviam ali, só podiam receber comida de postos controlados, desde que estivessem devidamente cadastrados e identificados. Com o voador quase acima dele, James pensou que sua vida terminaria ali, mas Roger, que estava em cima da escada,  soltou um grito e começou a atirar contra o voador. A máquina virou para seu lado, mas logo explodiu em uma bola de chamas e faíscas.
Quando acordou novamente, estava escuro, Roger o carregava com dificuldade pela viela enquanto Mike vinha logo atrás mancando.
- O que... - Começou James.
- Não se preocupe, estamos quase chegando à nossa base. - Respondeu Roger. - O importante foi o que você nos deu.
- O que eu dei? - Perguntou James confuso. - Não entendo.
- Você nos deu nossa primeira vitória.
Até então, os robôs só eram derrubados com armamentos pesados, nunca com armas de fogo comuns, as quais eram usadas apenas contra bandidos, pessoas que pudessem atrapalhar as missões da resistência, mas ao derrubar aquelas duas máquinas, James e Roger trouxeram esperança para todos, mostrando que eram capazes de explorar pontos fraco das máquinas e começar a recuperar seu país novamente.


em 20/10/2013 às 14:58
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