Conto: Sem Memória
Publicado em 03/08/2020 | 09:44 - 938

Acordou sem se lembrar de nada, onde estava, quem era. Tentou se levantar mas estava fraco, sua cabea doeu. Quando colocou a mo tentando parar a dor de cabea, sentiu algo gelado de encontro testa, ao olhar, percebeu que sua mo era feita de ferro. O susto quase o nocauteou novamente. Procurou examinar a mo que se movia como se fosse sua prpria carne.
- O que isso? ? Disse.
Mas no ouviu o som da sua prpria voz. Percebeu que na verdade, tudo era silncio, apenas um leve zumbido ao fundo. Olhava para o cu carregado, mas sem chuva. As nuvens pareciam descer at poucos metros acima de sua cabea, ento percebeu que era apenas um pouco de fumaa. Tentou levantar novamente, agora devagar. Consegui se sentar, mas a tontura chegou e quase o derrubou novamente. Olhou ao redor e se descobriu deitado sobre escombros do resto de algum galpo. O teto cara e duas paredes tambm. Outras edificaes estavam ruindo do outro lado da rua.
- Aqui est ele. ? ouviu baixinho. Se assustou pois no percebera que a audio estava voltando aos poucos.
Dois homens de botas pesadas, vestidos com roupas de cor neutra e tecidos grossos, como caadores sem os apetrechos. Grandes armas pendiam em seus ombros, seguras por uma ala improvisada de arame.
- Venha, eles ainda esto te procurando. - Disse um deles.
Como no pareciam lhe desejar mal, resolveu acompanhar os dois homens. Correram por entre prdios rudos, ouvindo sons de armas disparadas e bombas explodindo ao longe.
- Creio que estamos seguros, pensei que tinham acabado com voc James, mas aqueles voadores so muito burros. - Disse um dos homens.
- So burros mas fortes pra caralho. - Disse o outro. - Voc est muito calado, James. O que aconteceu?
- Estourou um mssil perto dele, o que voc acha que aconteceu? - Disse o primeiro homem. - Depois a gente conversa, vamos sair daqui.
Continuaram a correr at o final da rua, sempre com cuidado para no fazer barulho, agachando quando estavam em terreno aberto. Mas no momento em que chegaram na esquina, saram duas mquinas de trs de um escombro de onde fora uma loja de departamentos. As mquinas eram do tamanho de motos, mas eram blindadas, sem espao para algum entrar nelas. A frente das mquinas eram afuniladas, com um vidro escuro na ponta. Nas laterais havia dois aros grossos horizontais, nos quais havia uma hlice em cada um. Conforme se moviam, as mquinas levantavam muita poeira dos escombros.
- Malditos voadores! Vamos tentar sair daqui antes que nos vejam. - Disse um dos homens. Mas no houve tempo. As mquinas j estavam voando em sua direo.
- Identifiquem-se! - Veio uma voz metlica de um dos voadores.
- Aqui est minha identificao! - Gritou um dos homens enquanto abria fogo contra as mquinas.
Os tiros ricocheteavam nas mquinas e pareciam nem fazer efeito, mesmo os que acertavam no vidro escuro. O trio comeou a correr e atirar para trs, e os voadores foram em perseguio. Logo os voadores estavam atirando de volta no grupo, mas no conseguiam fazer boa mira, o que obrigou os trs homens a se abrigarem em um escombro perto.
- No podemos ficar aqui, s temos uma parede nos separando dessas malditas, vamos para a parte que no caiu. - Disse o homem que atirou primeiro. Ento correram alguns metros em direo uma escada visvel que os levaria ao prximo andar. Ao chegarem na escada, os tiros os acompanhavam, e um acertou a perna do ltimo homem da fila.
- Mike, voc est bem? - Disse o primeiro homem.
- Consigo andar ainda, mas no posso correr, vamos continuar subindo, Roger. - Respondeu Mike.
James apenas corria entre eles, mas parou para ajudar Mike a acabar de subir as escadas. Uma das mquinas chegou no p da escada, mas os homens j estavam quase no topo. James olhou para frente e viu que Roger parou abruptamente. Havia apenas uma pequena faixa de concreto quando a escada acabava e, teriam que se equilibrar para a esquerda para entrar por uma porta onde parecia ter outro corredor. Roger no teve tempo para processar isso, pois ao chegar no topo da escada, o voador estava subindo ao seu encontro bem na sua frente.
- Merda! - Gritou Roger ? No conseguimos derrubar esses filhos da me sem uma bazuca.
James estava bem perto de Roger e percebeu que iriam morrer ali se no aparecesse nenhuma ajuda. Ento por instinto correu na direo da mquina e pulou em cima dela. Sem tempo para pensar, de mos nuas, foi em direo hlice direita do voador e colocou toda a sua fora em um soco bem no centro daquele dispositivo que girava em to grande velocidade. No mesmo instante toda a parte direita da nave explodiu, jogando James para o lado, que caiu de costas de uma altura de cinco metros.
No momento da exploso, tudo voltou de uma vez na mente de James, como a empresa de robtica DB Robotics espantou o mundo ao invadir uma conferncia da ONU e prender vrios presidentes que participavam de uma reunio sobre preservao do meio ambiente. Mquinas que pareciam sadas de filmes, computadorizadas ou controladas remotamente no deixavam polcia, militares ou qualquer ajuda chegar. Ento quase que simultaneamente, alguns pases importantes tiveram o governo derrubado por milcias que atuavam em nome da DB Robotics. James era um agente secreto de proteo da ONU, estava presente quando as mquinas atacaram. Levou vrios tiros, teve a perna e o brao direito arrancados durante uma exploso e foi deixado para morrer, mas uma pesquisadora brasileira que trabalhava em Genebra, Sua, cidade onde se passava o encontro, conseguiu implantar prteses mecnicas, substituindo o brao, ombro, perna, metade da bacia e algumas costelas. Foram meses de sofrimento intenso enquanto seu corpo rejeitava as prteses, mas a pesquisadora no descansava e tentava de todos os meios fazer com que ele sobrevivesse. As prteses foram retiradas e substitudas trs vezes antes que o corpo conseguisse aceitar aquilo. E ainda at hoje James tem que tomar remdios para transplantados, contra a rejeio de rgos, que incrivelmente se adequou sua situao. Mas isso fora a um ano e oito meses atrs. Quando se recuperou, descobriu que a DB Robotics tivera xito em controlar os pases que atacou, e que vinha se expandindo pelo mundo. Descobriu tambm que haviam rebeldes contra essa dominao, e procurou se juntar a eles. Em pouco tempo assumiu uma posio alta no comando, devido sua experincia. Com os implantes, tinha uma fora bem maior que a maioria dos homens, e o metal conseguia proteg-lo de alguns perigos. Mas no era indestrutvel.
Quando tocou o solo com as costas, James viu o outro voador se aproximando rapidamente. Levantou o brao para se proteger, mas descobriu que ele se fora. A perna estava torta, mas continuava l. Tinha sado em uma misso simples, por busca de alimentos, j que estavam em um pas controlado pela DB Robotics e as pessoas que viviam ali, s podiam receber comida de postos controlados, desde que estivessem devidamente cadastrados e identificados. Com o voador quase acima dele, James pensou que sua vida terminaria ali, mas Roger, que estava em cima da escada, soltou um grito e comeou a atirar contra o voador. A mquina virou para seu lado, mas logo explodiu em uma bola de chamas e fascas.
Quando acordou novamente, estava escuro, Roger o carregava com dificuldade pela viela enquanto Mike vinha logo atrs mancando.
- O que... - Comeou James.
- No se preocupe, estamos quase chegando nossa base. - Respondeu Roger. - O importante foi o que voc nos deu.
- O que eu dei? - Perguntou James confuso. - No entendo.
- Voc nos deu nossa primeira vitria.
At ento, os robs s eram derrubados com armamentos pesados, nunca com armas de fogo comuns, as quais eram usadas apenas contra bandidos, pessoas que pudessem atrapalhar as misses da resistncia, mas ao derrubar aquelas duas mquinas, James e Roger trouxeram esperana para todos, mostrando que eram capazes de explorar pontos fraco das mquinas e comear a recuperar seu pas novamente.


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