Ficção
Gravidade Zero


Rafael era um homem pobre. Com vinte e sete anos, já era casado com Fabiana, mas não tinha filhos. Morava em uma casinha com paredes feitas de barro e telhado de palha, perto da mina onde trabalhava. Acordava todo dia às quatro horas da manhã para chegar na mina às seis. Fabiana não tinha emprego, mas fazia algumas rendas para vender na cidade, mas era difícil conseguir vender algo, pois era uma cidade muito pequena, e os moradores eram em sua maioria, modestos. Não chegavam a passar fome, mas não tinham fartura.
Naquele dia, Rafael levou em sua marmita, arroz e mandioca, comeu fria, sentado na beira do túnel principal, mais largo e mais bem iluminado. Não existiam muitos mineradores naquela mina de cobre, mas havia vários túneis antigos, perigosos, podendo ceder a qualquer momento. Alguns mineradores usavam esses túneis como banheiro, pois a companhia só colocava banheiros químicos do lado de fora das minas. Já era noite quando Rafael saiu da mina, imundo, cansado, fedendo. Passou pela administração e pegou o pagamento do dia. Essa rotina se repetia de domingo a domingo, pois ele recebia por dia trabalhado e era tão mal pago que não podia se dar ao luxo de muitas folgas. O dinheiro que sobrava, guardava para quando ficava doente e não conseguia trabalhar.
Nesse dia, Fabiana conseguiu vender duas peças, então comprou um pouco mais de linha e ainda ganhou quatro ovos de uma amiga da cidade.
- Rafa, a janta está quase pronta, vai tomar um banho pra gente comer.
- O que tem pra comer?
- Hoje temos arroz com ovo.
- Mas o ovo não estava caro? O que aconteceu? Baixou o preço?
- Não, ganhei 4 deles.
Então felizes eles jantaram, pois ovo e carne eram raros em sua mesa. Não tinham posse, bens ou dinheiro, nunca saíram da região, os dois eram órfãos e eram amigos desde adolescentes. No outro dia, acordou cedo e foi trabalhar feliz, pois tinha um ovo na sua marmita. Já era quase hora de almoçar, então Rafael entrou em um túnel mais afastado para se aliviar. Avançou alguns metros na escuridão, apenas com uma pequena lanterna presa na testa. Ao abrir o zíper da calça, escutou um estrondo. Teve tempo apenas de olhar para a entrada do túnel e ver as últimas pedras que desabaram, tampando a entrada. Correu até lá e tentou escavar, mover algumas pedras, mas as pedras eram grandes e as pequenas que conseguia retirar não faziam efeito.
- Socorro! – Gritou, mas não escutou nenhuma resposta.
Na verdade, percebeu que não escutava nenhum ruído mais, como se estivesse surdo, mas ao tentar mover outra pedra, escutou quando um pedregulho que se soltou acertou o chão.
- Pelo menos não estou surdo. SOCORRO! – Voltou a gritar.
E por alguns minutos, o desespero tomou conta dele e ele só gritava por socorro. Até ficar cansado, desistir, sentar do lado da pilha de rochas e chorar. Chorou até adormecer. Acordou cansado, com os braços e pernas doendo, a barriga doía de fome. Se lembrou do ovo na marmita, mas não poderia comer, o armário onde guardava suas coisas ficava na entrada da mina. Não sabia se tinha dormido por alguns minutos ou horas, a luz da lanterna estava enfraquecendo e as pilhas já estavam gastas. A picareta que usava para trabalhar tinha ficado do lado de fora, ele estava apenas com um lenço no bolso de trás da calça. Olhou em volta e viu apenas as rochas bloqueando a entrada. O túnel seguia para o outro lado, mas logo fazia uma curva. Sentado, Rafael se sentiu triste novamente, queria chorar. Ninguém sabia que ele estava ali, não avisou que estava indo usa algum túnel, e havia centenas deles pelo caminho. A mina era antiga, apenas recentemente fizeram melhorias no veio principal, para não acontecer desabamentos como aquele. Os túneis antigos não possuíam escoras, estavam abandonados havia tempo, enquanto o túnel principal estivesse fornecendo uma boa quantidade de cobre, não era necessário melhorar e explorar os túneis antigos. Com a luz enfraquecendo, decidiu explorar o túnel, procurar alguma rota alternativa, então foi avançando o túnel. Uma curva dava esperanças, podia ter uma ligação com outro túnel e uma saída. Mas a curva levava o túnel para a direita e depois novamente para a esquerda, então continuava reto. Rafael seguiu o túnel, andando por aproximadamente quarenta minutos, quando se deparou com outra pilha de rochas. Desanimado, desistiu de tentar. Caiu sentado na frente das rochas, voltou a chorar. Iria apenas esperar a morte chegar. Adormeceu novamente. Acordou no silêncio esmagador, mais dolorido do que antes. O frio agora entrava sob suas roupas, a cabeça doía, mas a fome abrandara, apenas uma leve dor indicando o estômago vazio. A escuridão era total, abrir ou fechar os olhos não mudava nada.
Em desespero, Rafael se deixou cair novamente, mas quando sua cabeça tocou o chão frio da caverna, ele vislumbrou um pequeno reflexo azulado sob uma rocha. Se sentou e piscou várias vezes olhando naquela direção, mas o reflexo desapareceu. Voltou a deitar e conseguiu ver novamente o reflexo. Tateou a rocha, era enorme, talvez fosse maior que o próprio Rafael, mas ele não tinha como saber. Tentou movê-la, mas era muito pesada ou estava presa. Tentou colocar a mão por baixo da pedra, mas o vão era muito estreito. Nem uma criança conseguiria colocar a mão ali. Após várias tentativas de mover a rocha, Rafael estava desistindo, quando chutou algo que fez um barulho diferente das pedras. Tateou no chão até encontrar um pedaço de madeira, uma viga pequena ou algo assim, quadrada e comprida, com um dos lados lascado, como se tivesse partido. Pegou a madeira e procurou algum encaixe, algum vão, onde pudesse colocar a madeira, e achou. Na lateral da rocha tinha um buraco entre outras duas pedras que se encaixavam nela. Colocou a madeira ali e forçou. A princípio, não conseguiu nem um movimento, mas logo ouviu o som de pedrinhas se desprendendo e caindo. Sentiu o cheiro da poeira e então a rocha foi lançada para frente. Escutou a pedra batendo no chão a vários metros dele, como se ele tivesse jogado uma bola e não uma rocha. As pedras que estava por cima também se movimentaram, caíram no vão deixado pela rocha, mas uma segurou a outra e fizeram uma espécie de teto no vão deixado pela rocha. Rafael olhou em busca do reflexo azulado, mas não viu nada.
Logo a poeira baixou e revelou um pequeno ponto de luz azul, não muito forte, mais parecia com um reflexo de uma outra luz. Era isso que Rafael viu, tateou até a luz e sentiu a luz vinha de um objeto que estava preso em algo comprido. Puxou com força e o que estava preso se soltou. Jogou horrorizado aquilo no chão. Era o esqueleto de uma mão. Mas a curiosidade era maior, ele pegou o objeto, era um anel. Assim que ele puxou o anel do dedo da caveira, a luz se apagou e ele ouviu o barulho de uma pedra caindo no chão, alguns metros a frente de onde estava. Pegou o anel e tateou. Era liso, apenas um pequeno relevo. Ao apertar o relevo, uma luz azul acendeu. Ao soltar, a luz apagou. Então ele posicionou o anel para fazer o relevo ficar entre os dedos e a luz para cima. A luz era fraca, mas naquela escuridão, era um consolo para os olhos. Com o anel posicionado entre os dedos, era fácil manter o botão apertado. Resolveu voltar à entrada do túnel, se alguém estivesse tentando resgatá-lo, era melhor estar por perto. Começou a tatear até achar a parede. Com a mão esquerda na parede se guiava no túnel, com a direita pra frente, mantinha a luz visível, para não entrar em pânico, e para não trombar com alguma rocha ou curva que porventura aparecesse na frente. Logo começou a caminhar. Dez metros depois, bateu com a mão direita na rocha que tinha desprendido antes. Com o susto a luz se apagou. Tentou mover a rocha, mas era muito pesada. Não entendia como conseguiu tirar aquela pedra dali, e nem como ela chegara tão longe. Não era redonda, era bem irregular, e tinha lados achatados. Lembrou-se da luz e apertou os dedos. A luz azul se acendeu e ele chegou mais perto da pedra para examinar. Chegou tão perto que acabou batendo o anel na rocha. Com a outra mão tentou se apoiar na rocha, mas esta rolou para o lado. Assustado deu um passo atrás e afrouxou a mão. A luz se apagou e ouviu o barulha da rocha caindo de volta no lugar onde estava anteriormente. Rafael tentou novamente mover a rocha, ela não cedeu nem um milímetro. Ligou a luz azul e tentou novamente. Nada. Encostou o anel na rocha e empurrou novamente. A pedra se moveu sem nenhum esforço. Ele empurrou a rocha com força e ouviu ela raspando na parede enquanto se afastava. Soltou o anel e ouviu o barulho da rocha caindo no mesmo instante.
No escuro, Rafael levou horas para voltar até a entrada. Quando chegou estava exausto, mas se forçou a retirar as pedras. Com cuidado retirou as pedras, algumas faziam outras caírem novamente, mas não tinha escolha, era a única chance de sobreviver. Conseguiu mover as pedras até ver uma luz fraca, por duas vezes teve que retirar pedras que caíam e fechavam o caminho, mas conseguiu deixar um buraco suficientemente grande para passar. Quando finalmente emergiu no túnel principal, ouviu:
- Olha lá, é o Rafael!
- Você melhorou?
– Perguntou outro homem.
- Melhorei? O que vocês estão falando? – Respondeu Rafael.
- Você sumiu outro dia na hora do almoço, depois ficou um dia inteiro fora e aparece agora, quase na hora de irmos embora, achamos que tinha passado mal e ido pra casa.
- Ninguém me procurou? Fiquei preso na caverna.
- Como assim? O que estava fazendo numa caverna dessas? Sabe que não devemos entrar.
Rafael ficou furioso que ninguém percebeu que ele tinha sumido, deu as costas aos colegas e foi para casa. Chegando em casa, encontrou Fabiana aos prantos.
- Rafa. Você está bem. Graças a Deus.
- Estou bem agora. - O que aconteceu?
- Fiquei preso em uma caverna. Nunca mais volto naquela mina.
- Você está bem? Deixa eu ver.
– Fabiana foi apalpando e revirando Rafael, até ficar satisfeita.
- Estou bem, estou bem. Só estou cansado... e faminto.
Então Rafael se lavou enquanto Fabiana fazia a comida. Comeu e dormiu até a metade do outro dia.
- O que vamos fazer agora? – Perguntou Fabiana.
– Você disse que não vai voltar naquela mina, eu não acho trabalho, temos muito pouco dinheiro em casa.
- Vamos para a cidade grande, para outro estado, vamos fazer nossa vida. – Respondeu Rafael.
- Mas Rafa, nós não temos estudo, não conhecemos ninguém. Como vamos chegar na cidade grande? Rafa não tinha a resposta, mas Fabiana o seguiu quando ele juntou seus poucos pertences em uma trouxa de pano e abandonou aquele lugar ermo. Foram meses para chegar na capital do estado, pegando caronas, comendo às custas da bondade de estranhos, passando fome. Quando chegaram à capital, Fabiana pedia dinheiro às pessoas para poderem comer e Rafael procurava um trabalho. Logo achou um emprego para carregar sacos de cimento, seria um trabalho pesado se ele não tivesse o anel, então aceitou. Em poucos meses conseguiram alugar uma casinha na periferia, não estavam mais passando fome. Rafael começou a estudar, achou um supletivo perto de sua casa. Conseguiu um emprego melhor em um canteiro de obras, aprendia o ofício, carregava material e entulhos o dia todo, mas sempre usando o anel, não aparentava cansaço como os outros trabalhadores, então começava a fingir para não se destacar. Rafael sabia que se alguém descobrisse sobre o anel, iriam tomar dele, não contou nem para a esposa sobre ele. Aprendeu o básico no supletivo, procurou ler e aprender as coisas, descobriu que gostava muito de saber coisas que nunca imaginava que existiam, como barcos enormes que afundaram no mar, com tesouros não descobertos. Isso se tornou uma fixação em sua mente. Estudou tudo sobre o assunto. Gastava seu tempo livre indo à biblioteca municipal, acabou aprendendo a usar o computador para pesquisar na internet. Deixou Fabiana de lado, mesmo não deixando faltar comida, roupas, remédios, etc, não tinha tempo para estar com ela, passear. A sede de conhecimento criou um espaço entre eles.
Rafael decidiu se mudar para uma cidade litorânea, para estar mais perto do seu sonho. Fabiana foi contra, eles tinham se acertado ali, feito amigos, iam para um lugar desconhecido novamente? E se Rafael não tivesse a mesma sorte nos empregos, como aconteceu ali? Todo lugar que ele trabalhava, se dava bem. Sempre envolvendo trabalho braçal, sempre conseguia executar seu trabalho perfeitamente. Com um pouco de dinheiro que tinham guardado, alugaram uma casa na nova cidade. Logo encontrou trabalho no porto, ajudando a arrumar cargas de navio, carregar e descarregar caminhões, etc. Em seu tempo livre, Rafael aprendeu a nadar, mergulhar, usar equipamentos que ele só tinha lido sobre. Algum tempo depois, apareceu um navio de pesquisadores. Conseguiu um emprego no navio e logo começou a mergulhar para ajudar as investigações. Passava semanas no mar, aprendia muito sobre pesquisa e abria uma distância ainda maior de sua esposa.
Alguns meses depois de se tornar mergulhador oficial naquele navio, descobriram um navio negreiro muito antigo, naufragado. Entraram e viram centenas de esqueletos dentro dele. Voltaram para a superfície e desistiram dele. Mas Rafael estava curioso, voltou sozinho para vero navio, tinha lido que o comércio de escravos era próspero, talvez tivesse algo de valor nas cabines dos oficiais. Logo que entrou no navio, passou por entre todos aqueles esqueletos, indo para o fundo, onde havia portas fechadas. A maioria das portas levava a despensas de latas enferrujadas, sacos de comidas vazios, alguns canhões e munição. Mas um uma das portas descobriu uma cama e um armário. Não encontrou nada ali, só um livro esquisito, com páginas grossas que resistiram à água do mar. Quando estava saindo da cabine, percebeu um vão entre as madeiras laterais, forçou e encontrou um baú enorme. Seriam necessários cinco homens pra carregar algo assim. A tranca enferrujada abriu com facilidade, revelando moedas, jóias e barras de ouro. Usando o anel, Rafael tirou o baú do navio e o levou para longe, colocou pedras, pedaços de madeira e outras coisas grande para esconder o baú, depois voltou para o barco. Marcou as coordenadas do GPS e não comentou com ninguém sobre aquilo. Quando voltou para casa, uma semana depois, pegou todas suas economias e alugou um barco e equipamentos de mergulho. Sozinho, navegou até o local apontado pelo GPS, mergulhou e trouxe a arca para cima. Foi o que precisou para começar sua própria companhia.
Comprou um barco pequeno, mergulhava sobre algum navio e dizia ter encontrado algum ouro, depois outro e outro, logo conseguiu legalizar todo aquele ouro, e encontrou algumas coisas valiosas enquanto isso. Se tornou muito rico, mas ficou arrogante. Desprezava as pessoas que não tinham posse, tratava mal seus funcionário e sua esposa, até que ela não aguentou mais e se separou dele.
- Eu nunca te deixei faltar nada, sua ingrata. – Rafael disse naquela noite. – Eu te tirei da miséria e você me trata assim.
- Você não me tirou da miséria, nós viemos para a cidade juntos, você era miserável também.
- Você tem tudo. Carro, viagens, faz compras a hora que quer, o que te falta nessa vida?
- Amor. – Ela respondeu. – Você não é mais o mesmo Rafa. Nós não tínhamos dinheiro mas éramos felizes.
- Felizes? Você está louca? Nem conseguíamos comer direito. Hoje comemos até arrebentar o estômago.
Com lágrimas nos olhos, Fabiana se virou e fugiu pela porta. Foi a última vez que Rafael veria Fabiana em vida. Os dias seguintes foram angustiantes para Rafael. Sem Fabiana, ele não conseguia pensar direto, a empresa foi deixada de lado, as buscas, tudo. Ele tinha dinheiro, mas perdera o único amor da sua vida. Rafael procurou por Fabiana por meses, gastou muito dinheiro com detetives, investigadores, informantes, mas não achou nenhuma pista dela. Em desespero, voltou à sua cidade natal, com roupas elegantes, visitou sua antiga casa e descobriu que estava vazia. Passou a noite ali. Lembrando. Chorando. Não dormiu, apenas ficou olhando para as paredes nuas. No outro dia, foi até a mina onde trabalhava, e a encontrou fechada. Com um chute, derrubou a fina porta de madeira que bloqueava a entrada. Descobriu várias rochas caídas, tampando parte do caminho. Retirou algumas e entrou. Encontrou uma lanterna de cabeça que ainda funcionava, colocou e foi até a parte onde trabalhava. Chegando quase no fim do túnel, Rafael reconheceu o local onde ficou preso. A maioria das pedras ainda estava lá, mas o buraco se transformara em um vão. Ele resolveu entrar. Queria ver aquele esqueleto mais uma vez. Queria perguntar se ele teve os mesmo problemas, se o anel trouxe tantas alegrias e decepções também para ele, ao passar pelo vão, retirou as pedras pesadas que estavam nas laterais, com isso o teto começou a cair. Cada rocha que caia, Rafael pegava com o anel e jogava longe, mas em uma das vezes que se virou para jogar uma rocha, uma pedra o acertou nas costas, derrubando-o. Rafael conseguiu se virar e tirar a pedra com a ajuda do anel, mas outras pedras vieram e o prensaram antes dele conseguir tocá-las com o anel. Logo Rafael estava soterrado, agonizando. A poeira assentou, a luz da lanterna se extinguiu, deixando apenas a escuridão intensa e uma tênue luz azul que refletia na mão pálida e gelada presa entre as rochas.


em 03/12/2013 às 13:21
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